ROBÉRIO BRAGA – Seminário São José

Tenho comigo a lembrança de haver estudado um ano no prédio em que funcionou o Seminário São José, na Avenida de Joaquim Nabuco, à época alugado para o Instituto Christus do Amazonas do sempre saudoso Origenes Martins e do mestre Carlos Eduardo Gonçalves.
Mas dessa feita, o que trago aos leitores é o registro curioso de anúncio oficial do Seminário constante de jornais nos idos mais antigos de 1882, quando essa escola prestava instrução primária e secundária. No curso primário, ensinava a ler e a escrever, Elementos de Gramática Portuguesa, Noções de Geografia, História do Brasil, Elementos de Aritmética, Catecismo e História Sagrada, disciplinas que na sua maioria se mantiveram por muitos anos em diversas escolas públicas, religiosas ou não.
No curso secundário, constavam Português, Latim, Francês, Aritmética, Álgebra, Geometria, Geografia, História, História Universal, Retórica, Filosofia e Religião e, se quisesse e pudesse pagar um pouco mais, o aluno teria aulas de música vocal e instrumental e desenho, incluindo aluguel do piano.
Funcionando com alunos internos, meio-pensionistas e externos para o curso primário, todos deveriam fazer pagamento direto ao Seminário. Para os internos, a lista do enxoval não era pequena, desde travesseiro e roupas de cama e banho, meias, ceroulas, paletós pardos, lenços, calções de riscado para banho, sacos de roupa, camisolões de dormir, sapatos para usar em casa e de sair, espelho, pentes, tesoura pequena e material de higiene pessoal, além de bolsinha para andar na mão com pequenos objetos.
Havia desconto para dois ou mais irmãos, mas, também, se pagava pelo papel, lápis, caneta, pena, tinta e régua, com taxa anual de material de consumo, além do pagamento por outros serviços que poderiam ser oferecidos como talher, copo, bacia, corte de cabelo uma vez por mês, porém o Seminário não fornecia os livros, que eram obrigação da família.
Como é comum nos internatos, as roupas pessoais e de uso em alojamento e banho deveriam estar marcadas com as iniciais do aluno e o número de identificação que lhe seria dado no Seminário. Bem formal era o uniforme, composto de calça, paletó e colete de pano preto, gravata da mesma cor e chapéu de massa também preto.
O reitor deste tempo em que recupero o anúncio-publicidade de abertura de vagas, era o padre Amâncio de Miranda, figura que se tornou controversa por envolvimento na política local, tendo exercido a vice-presidência e a presidência da Província do Amazonas, a direção geral da Instrução Pública e se metido em muitas encrencas e embates pela imprensa e pela tribuna política.
O que não se deve deixar de registrar é que esse estabelecimento foi pioneiro no ensino de melhor qualidade no Amazonas, ainda no período provincial, e prestou relevantes serviços à educação, tendo sido o responsável pela formação de gerações, e, em certas ocasiões, enviando jovens para estudos fora do território nacional ou recomendando esse encaminhamento às autoridades locais.
Iniciado em 1848 e funcionando sem interrupção até 1906, quando suspendeu as atividades, retornou em 1944, conquistou sede própria e se manteve cumprindo importante papel na educação de base cristã e católica romana.
O prédio em forma de palacete, de muitas saletas, andar dobrado e grande mangueira ao fundo do terreno, só existe na lembrança dos que o ocuparam para aulas encantadoras que não se esvaem da minha lembrança.
*O autor é advogado, membro da Academia Amazonense de Letras
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