domingo, janeiro 11, 2026

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ROBÉRIO BRAGA – Sinais de empobrecimento

Robério Braga

De tanto revolver páginas e páginas de jornais antigos, desde os primeiros anos em que passei a integrar o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, nos idos de 1973, no qual se acha depositada a mais antiga e completa coleção de periódicos do estado, aos dias presentes, em que me valho da rede mundial de computadores, venho observando que a partir de 1913 Manaus foi empobrecendo em decorrência da queda da economia da borracha, como explicam os historiadores mais referenciados.

Claros sinais desse empobrecimento podem ser vistos nos inúmeros editais e avisos de leilão público ao correr do martelo de vários leiloeiros, nos quais consta a descrição detalhada dos bens de família e de negócios postos à venda, em alguns casos porque haveria mudança de cidade, visto que Manaus se tornara terra sem oportunidades, ou porque o patrimônio e os seringais tinham ruído.

Para exemplificar esse fato, tomo o ano de 1926, precisamente cem anos passados, no qual encontrei inúmeros editais dessa natureza, os quais permitem que se perceba o nível socioeconômico dos proprietários e o “status” das empresas, como as de hotelaria semelhantes ao caso do Hotel Excelsior, que vendeu sua excepcional mobília e apetrechos de uso pessoal e de cozinha.

No campo dos pequenos e médios comércios, chamou minha atenção a venda dos bens do Ateliê Rainha da Moda, situado na Rua do Enrique Martins, n. 15, cujos proprietários venderam tudo que possuíam para trabalho e exposição de peças, tais como corpos de armação envidraçada, balcão, mesa de cortes, manequins, formas , ventiladores, espelhos, biombos, máquinas de costurar e de plissar, cabides, fazendas, vestidos para senhoras e meninas, fitas, chapéus, tocas,  formas de esparteaux, flores e plumas para chapéus, enfeites de pena, carretéis de linha, linha mercerizada, palha de seda para chapéus, contas para vestidos e até artigos de carnaval e bisnagas.

Da mesma época a derrocada de uma família importante que vendeu móveis de alcova em peroba clara, cama de casal com tela, colchão de crina e travesseiros de sumaúma, guarda-vestidos com três portas e espelho biseauté, penteadeira com pedra e duas faces de espelho biseauté,  mesa de centro em peroba, console,  conjunto de sala em peroba clara composto de  mesa elástica para 12 talheres, guarda-louça com espelho biseauté, guarda cristais com porta de vidro gravada a fogo, aparador com pedra e espelho, 12 cadeiras de palhinha e encosto de couro, relógio carrossel de repetição, cabide austríaco de pé, máquina “Singer”, mesas-carteiras, colunas em peroba, cachepôs de eletro-plate, filtro Ribeiro, aparelho de porcelana Limoges para jantar, chá e café, cristais, cadeiras austríacas, automóvel “Overland”, de 30 H. P., magneto Bosch, 4 cilindros, em perfeito estado, vaca leiteira turina pura com cria de pouco tempo, camas de ferro, louças de porcelana, fogão americano,  cofres Mineer, carteira americana, máquinas de escrever “Royal” e “Yost”, ventilador de teto, prensa para copiar, estante para livros, mosqueteiros, fronhas, toalhas, roupas de casimira e brim,  camisas e ceroulas.

Vale nota que a publicação de tais avisos de leiloeiro credenciado vinha de alguns anos, em sequência e ritmo crescente, podendo ser considerado sinal concreto e significativo do empobrecimento do empobrecimento de que tanto se sala nos estudos de história social e econômica da cidade, demonstrando que a queda da exportação da borracha nativa, além de influir na piora dos serviços públicos, desfazimento de vários cursos da Universidade Livre de Manaus, no desentendimento entre os políticos, na redução da qualidade de vida de boa parte da população, também desmantelou famílias que viviam com certas regalias as quais se viram obrigadas a se desfazer de bens pessoais e da casa.

Sinais dos tempos de desventura.

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