ROBÉRIO BRAGA – O carnaval chegou

O tempo do carnaval em Manaus sempre começou com a chegada da Kamélia, portanto, já estamos em temporada de folia. Pois a elegante menina do Olímpico Clube já desembarcou na cidade, e, com ela o Rei Momo e sua Corte já composta e bem escolhida, o que nos remete a carnavais do passado não muito distante nos quais a Avenida Eduardo Ribeiro era muito bem decorada, os coretos organizados pela prefeitura atendendo a pedido da Rádio Difusora que fazia as batalhas de confete, eram ocupados por bandas para retretas, enquanto os desfiles de blocos e foliões repetiam o circuito dos antigos carros alegóricos dos anos de 1900, em um sobe e desce de alegrar qualquer folião.
O Clube da Mocidade, com sua irreverência, os blocos de sujos, a escola de samba Em Cima da Hora e, anos depois, a escola de samba Unidos da Selva, esta que era liderada pelo coronel Jorge Teixeira de Oliveira, desciam em grande estilo, animando os populares que se aglomeravam nas calçadas para ver a brincadeira, a sadia brincadeira de jovens e idosos, aproveitando o carnaval de rua com liberdade e baixo custo.
Muito antes, essa animação toda começava em derredor da igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, na Rua do Visconde de Mauá, com a festa do Pingarrillo, cujo bloco saía para assustar a população não dançante. Eram bailes a caráter e a fantasias, ou bailes de máscaras, todos eles repletos de uma parte da sociedade mais aquinhoada e capaz de gozar a folia com altos custos financeiros.
Nas ruas principais da cidade, ainda acolhedora e bucólica, como costumo dizer, em outros tempos saíam os cordões, os brigues, os foliões isolados, cada um festejando esse período da melhor forma que podia, quase sempre se valendo de bisnagas de plástico, confete e serpentina e experimentando sambar na avenida.
Nos clubes sociais, dos mais sofisticados aos mais simples, davam-se os bailes carnavalescos. O primeiro de que me lembro era na AABB, a 7 de dezembro, depois nos Barés, Cheik, Rio Negro, Ideal, União de Constantinópolis, São Raimundo, Sul América, União Esportiva Portuguesa, Nacional, Olímpico, Bancrevea, Beasa, cada qual com seu público preferido, oferecendo as mais variadas oportunidades a jovens e casais. Nessa época, havia não só o concurso de fantasias no Rio Negro, Nacional, União Esportiva Portuguesa e Ideal, sempre muito bem concorridos, como havia os blocos que assaltavam as festas dos clubes, inesperadamente, organizados pela juventude associada a cada um deles.
Rionegrino desde cedo, e tendo tido a oportunidade de dirigir a juventude do clube durante algum tempo, não consegui levar o nosso bloco para assaltar o Nacional, porque, naquele tempo, conforme falava o mestre Aristophano Antony, presidente do Rio Negro, o bom rionegrino não passava nem na calçada do Nacional, tal a rivalidade que havia.
Ao registrar essas curtas passagens, de memória, entendo muito bem que os tempos são outros, a cidade cresceu em uma explosão populacional sem medida, a forma de brincar o carnaval mudou por demais, e a vez é das grandes escolas de samba em desfiles oficiais, das bandas de rua, cada uma mais desejada que a outra e, logo depois, a brincadeira de boi-bumbá que invade o fim do carnaval com seu dois prá lá dois prá cá.
É hora de largar os cabos e aproveitar a folia do Rei Momo.

