ROBÉRIO BRAGA – Bandas de carnaval

Arrastando multidões Brasil afora, as bandas de carnaval levam às ruas foliões de todas as idades animados em dançar, pular, cantar, bebericar, paquerar – como se dizia antigamente – mas, atualmente, beijar até de forma ardente e impulsiva, entregando-se ao tempo de Momo como se tudo fosse acabar na quarta-feira. Tem sido assim por todas as regiões, pelo menos nas principais capitais de estados brasileiros.
Por essa cidade de Manaus – terra do já teve, como diziam os mais antigos para assinalar as perdas que nos foram impostas ou por nós consentidas – nos últimos anos surgiram e se consagraram várias dessas bandas e blocos de rua simbolizando liberdade ainda maior para os adeptos do tríduo momesco.
Dentre as centenas de bandas que animam os bairros, algumas surgem com maior poder de aglomeração de público, tradição e capacidade de organização e, a cada ano, vão conquistando mais adeptos e fama. Vale destacar, nesses pontos, a dos Educandos, que é antiga e adquiriu boa fama; a do Cinco Estrelas, que sempre inova no tema escolhido; a do bloco das Piranhas, sempre explosiva e com número cada vez maior de foliões; a da Difusora, que toma conta de boa parte da avenida Eduardo Ribeiro e é transmitida ao vivo com grande animação; a do Galo de Manaus, replicando a do Galo da Madrugada, do Pernambuco, que começou reunindo os pernambucanos aqui residentes e foi crescendo pela qualidade da organização a ponto de explodir no Sambódromo; a da Bica, que sempre esteve atrelada a viés de protesto político ou a temas bem críticos, o que fazia com qualidade e inteligência, mas parece querer abandonar essa linha para empobrecimento do carnaval amazonense; a do Boulevard, que marca presença especial com crescimento surpreendente nos últimos anos, usando trema próprio, disco e músicos de arrebentar; a banda do Gigante, com mais de 25 anos de existência e a Baixa da Égua que sempre marca presença destacada dentre as demais. Muitas outras, também de qualidade e valor, servem para o extravasar das dores do ano anterior.
É verdade que, não em razão dessas bandas, mas como consequência natural dos novos tempos, sumiram os pequenos blocos que desfilavam antes das escolas de samba mais tradicionais, os cordões, o Clube da Mocidade, os brigues, a turma do “mela-mela”, as batalhas de confete, as festas mais chiques nos clubes sociais, os foliões isolados que disputavam prêmios e encantavam o público aglomerado no sobe e desce pelas calçadas da Avenida de Eduardo Ribeiro, desde há muito até os meados dos anos 1970. Enfim, a forma de brincar o carnaval mudou completamente em Manaus nos últimos 40 anos até porque a mescla da população foi bastante ampliada e diversificada, atraindo novos hábitos e estilos de vida e entretenimento.
As notícias que vão ficar a respeito dos carnavais manauenses do século XXI são bem diferentes daquelas que se pode ver por grande parte do século passado. Além das peculiaridades locais que devem ter contribuído para tanto, como se trata de festa popular – a mais popular e livre do país -, essas mudanças e suas nuances traduzem a forma como o povo foi preferindo exprimir essa manifestação característica da nossa terra.
O que vale, mais que tudo, é não perder a oportunidade de sair na avenida, deixar a vergonha de lado e, com fantasia ou de cara limpa, botar o seu bloco na rua até pegar o sol com a mão, fugindo dos riscos que são cada vez maiores e costumam assombrar as autoridades de saúde e segurança pública.
Não vamos mais de Jardineira nem de Kamélia, mas o samba deve presidir a animação, inclusive das Escolas de Samba, mas tudo deixa saudade que só vai ser curada quando o próximo carnaval chegar.
*O autor é advogado, membro da Academia Amazonense de Letras

