ROBÉRIO BRAGA – “Do outro lado do sol”

O título do livro, que tomo de empréstimo para esse artigo – “Do outro lado do sol” –, sugere que poderia se tratar, também, de um filme, um documentário, uma contação de populações tradicionais em reunião de família no terreiro da grande aldeia em derredor da fogueira em noite de boa lua, mas se trata de obra de autoria do jornalista e pós-doutor Wilson Nogueira, recém-lançada pela editora Valer em uma manhã passada que possibilitou encontros e reencontros, daqueles que matam a saudade e fortalecem os afetos, rebrilham os olhos e encantam o coração.
Mesmo sem precisar de prefácios ou antelóquios, Wilson é entregue ao leitor por mãos femininas como se em maternidade literária, precisamente por Ivânia Vieira e Leila Leong que escrevem a orelha e o prefácio, e na hora de dar a conhecer a obra foi a voz também autorizada e o pensamento brilhante de Marilene Corrêa da Silva Freitas que se fez ouvir. Essa deve ter sido uma maneira que o autor encontrou para amenizar os tons de algumas passagens da história do massacre que tisnou o rio Andirá, na Barreirinha de Aderson Dutra, nos idos de 1956.
A princípio, parece que se trata de uma grande reportagem do menino de Parintins que tive o privilégio de conhecer há anos, e com ele trabalhar pelos idos de 1995, quando mandei buscá-lo na terra dos bois-bumbás para modernizar os textos de comunicação social com os quais o governador pretendia levar a boa informação sobre suas iniciativas na Administração. Foram dias de aprendizado. Conheci mais de perto como é possível compor um texto leve, sincero, calcado na verdade dos fatos e de fácil leitura e compreensão. A política sem adoração nem ódio.
O livro é cativante, intrigante e curioso. Dolorido! Não é matéria policial nem notícia de crime, podendo ser entendido como a contação investigativa em busca de descobrir e revelar o criminoso e os motivos que o levaram aos atos bárbaros contra a indefesa mulher em gestação de nova vida e inocentes meninas.
Depois da festa do lançamento, tomei-o em minhas mãos quando era quase a boca da noite e me debrucei ávido em conhecer mais este trabalho de Wilson Nogueira, visto que já me deliciara com os seus “O Andaluz” (2012) e “Boi bumbá: imaginário e espetáculo na Amazônia” (2014) e, mesmo sabendo que já publicou literatura infantil, ainda não tive a oportunidade de ler essas produções.
Pensei que se poderia considerar tratar-se de um choque de culturas completamente díspares, a dos povos tradicionais do encravado dos rios amazônicos com a visão oposta dos extremos, a nipônica, de tantas e ricas contribuições ao caldeamento brasileiríssimo-amazônico.
Nogueira, tal como tantos outros, mas ele em particular com esmero, assenta lições de bem-escrever e descrever, e alivia a angústia de quem na leitura direta acompanhou as passagens da tragédia contadas por familiar do sofrimento e seguiu lendo devagar, página a página. Reduz a angústia ao recuperar e dar a público o legado de ensinamentos de uma sábia senhora daquele mundo escondido e com isso alimenta a alma dos leitores com benfazejas flores: “Não deixo herança/deixo palavras de esperança/No vazio em que vivo/Entre dois sois/Só as palavras alcançam as lembranças”, e como se não bastasse esse bálsamo, incluiu uma recomendação primorosa da mesma mestra, e o fez, naturalmente, para ensinar-nos o valor de preenchermos o coração “com o mel das abelhas do vale amazônico, porque elas se alimentam do néctar de diversas flores…”.
Após a leitura do livro, de todo recomendada, deixemos os corações em flor.

*O autor é advogado, membro da Academia Amazonense de Letras

