AUGUSTO BERNARDO CECÍLIO – Campanha da Fraternidade 2026: Fraternidade e moradia

A Campanha da Fraternidade (CF) constitui-se como um profundo movimento de conversão e reflexão durante o tempo da Quaresma, convocando os fiéis à prática do jejum, da oração e da caridade. Seu propósito central é despertar a solidariedade e converter a sociedade à luz do Evangelho, estruturando-se na renovação espiritual da Igreja e no engajamento social diante de problemas urgentes como a pobreza e a desigualdade.
Em 2026, a CNBB apresenta o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), focando na habitação digna como um direito fundamental e condição essencial para a dignidade humana.
A urgência deste chamado é reforçada pelo alarmante panorama brasileiro, onde o déficit de 5,9 milhões de moradias se soma a 26 milhões de lares inadequados. Nesse cenário o Amazonas enfrenta uma grave crise habitacional, ocupando a terceira posição no déficit nacional com cerca de 177 mil domicílios em situação precária, de coabitação ou alto custo de aluguel.
Manaus é o epicentro, com demandas por 100 mil a 119 mil novas moradias além de apresentar um dos contextos mais críticos e simbólicos do país. A capital amazonense, marcada por sua geografia de águas, vê o drama habitacional manifestar-se severamente nas margens dos igarapés.
Milhares de famílias residem em palafitas e construções precárias que, embora representem a única alternativa de teto, expõem os moradores a riscos constantes de inundações, falta de saneamento básico e doenças. Essas moradias, encravadas em áreas de preservação, evidenciam a face mais cruel da exclusão urbana: o conflito entre a necessidade de sobrevivência e a preservação da “casa comum”.
Com um déficit estimado em mais de 100 mil moradias, Manaus lidera, segundo o Censo 2022 do IBGE, o índice de população vivendo em comunidades urbanas e áreas de ocupação informal. A realidade dos igarapés exige uma abordagem de ecologia integral, onde a justiça social deve caminhar junto à recuperação ambiental.
Não se trata apenas de remover famílias, mas de garantir que o reassentamento preserve vínculos comunitários e ofereça infraestrutura digna, integrando essas pessoas à cidade formal com segurança e cidadania.
Diante disso, a colaboração da sociedade civil e das instituições religiosas é o motor da transformação. A participação em Conselhos Municipais e a revisão do Plano Diretor de Manaus devem priorizar a demarcação de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) nessas regiões, protegendo os moradores e facilitando a Regularização Fundiária (REURB). Através da Lei Federal 13.465/2017, associações podem buscar o título definitivo, garantindo segurança jurídica contra despejos e acesso a crédito para melhorias habitacionais.
As paróquias e comunidades de fé, em sintonia com a CF 2026, assumem um papel de mediação e acolhida. Elas podem atuar como centros de educação em direitos, orientando as famílias dos igarapés sobre políticas de habitação, como o programa “Amazonas Meu Lar”, e pressionando para que o controle de imóveis vazios no centro histórico amplie a oferta de moradia em áreas já urbanizadas. Assim, ao olhar para as margens dos nossos igarapés, a Campanha da Fraternidade nos convoca a reconhecer que garantir um lar seguro é, acima de tudo, um ato de fidelidade ao Deus que escolheu morar entre nós.
*Conteúdo e formatação: Professor Bibiano Filho, educador da rede pública municipal de Manaus e articulador socioambiental. Colaborador na Coordenação da Campanha da Fraternidade e integrante da Comissão em Defesa dos Igarapés, instâncias da Arquidiocese de Manaus.
*O autor é Auditor fiscal e professor

