domingo, janeiro 25, 2026

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ROBÉRIO BRAGA- Nitroglicerina Pura

Robério Braga

Faz algum tempo que tenho separado para leitura em dias feriados um pequeno livro que trata do noticiário político da vida brasileira de anos passados, com base nas malas diplomáticas de representante dos ingleses no país, com descrições que, muitas vezes, beiram o fuxico, a depreciação, a intriga e o disse-me-disse, coisas que não se deveria esperar dos ingleses, ao lado de registros curiosos do cenário em que se processaram grandes decisões que mudaram o rumo da vida nacional.

Estou tratando de uma obra escrita em parceria de Geneton Moraes Netto e Joel Silveira, cronistas políticos por excelência, em quarta edição, de 1992, uma daquelas publicações bem populares para ter baixo custo e ser vendida como água, quando a água ainda chegava barata e de boa qualidade às torneiras das residências.

Desta feita, em alguns poucos dias de repouso, dei preferência à leitura desse livro, agora carregado de anotações, marcações e indagações a complementar fatos por eles narrados, alguns dos quais reclamam pesquisa mais abalizada. Ao que vi e li em deleite aproveitando o vento que corre forte nas praias ensolaradas, nenhuma figura exponencial ou mais ou menos exponencial da política brasileira escapou à observação do embaixador da Grã-Bretanha, pelo menos na década de 1930. Porém, nada surge no texto que não tenha sido resultado da pesquisa em documentos originais que a mala da embaixada remeteu ao conhecimento do governo inglês, sempre com referência, data e tudo que possa identificar o acontecido e relatado. Resultado, portanto, da observância arguta de autoridade estrangeira, com visão eterna sobre os problemas e os políticos, governantes ou não, diante de situações presenciadas e acompanhadas pela autoridade.

Assim é que surgem o nortista baixo e feito, o mulato que subiu na vida falando um francês passável, o cidadão que cresceu na vida usando o dinheiro da esposa, o alto mandatário que não tinha nenhuma habilidade extraordinária, mas comandava São Paulo, o chefe de polícia no Brasil que, foragido, dirigiu taxi na Argentina, os burros de carga, os cães de guarda, os lambe-botas que são figuras sempre presentes nas hostes de qualquer poder constituído, o Dantas que não recebia propina nem dava gorjetas, a senhora perfumada, a bela e insinuante primeira dama.

A descrição mais detalhada, como não poderia deixar de ser, foi a do velho Getulio, o homenzinho surpreendente, o mesquinho e cruel, o líder, o publicitário de si próprio com as festas públicas nos grandes estádios como o do Vasco da Gama, sempre regadas a desfiles, canto coral, com verdadeira multidão para apupos, aplausos e dança de bandeirinhas com as cores do Brasil, todos à espera da palavra do chefe da Nação, o pai dos pobres, o criador dos direitos trabalhistas que sempre chegava bem trajado, de forma impecável, cabeleira posta, polaina, terno elegante e, ao tomar o microfone devidamente preparado para seu alcance, iniciava o discurso com a saudação que encantava o povo como fazia o encantador de serpentes, com chavão insubstituível que chamava os brasileiros a ouvi-lo.

Tratava-se da “raposa mais astuta do hemisfério ocidental” e cuja baixa estatura dava “a impressão de insignificância”, mas que a tudo e a todos sobrepujava, desconcertava com um sorriso maroto, um silêncio de esfinge, um caminhar lento como se estivesse cansado, mas que se retemperava a cada ameaça sobre seu poder de mando, partisse de onde partisse, “o homem que se livrou dos políticos, reprimiu o comunismo e o integralismo, acalmou as forças armadas com mais equipamentos”, e se fez várias vezes ditador e presidente, que foi minuciosamente observado pelos ingleses, flertou  no rumo de Stalin e Hitler, mas se integrou aos libertários do mundo contra o nazifascismo.

Vale ler a “Nitroglicerina pura”.

*O autor é advogado e membro da Academia Amazonense de Letras

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One thought on “ROBÉRIO BRAGA- Nitroglicerina Pura

  • janeiro 25, 2026 em 12:41 pm
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    Parabéns, Saudações Literárias…

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