LOURENÇO BRAGA – A amarelinha

Comecei a escrever estas mal traçadas linhas na manhã da 6ª feira, antes, portanto, de o time brasileiro, convocado como seleção, entrar em campo (afinal, parece que entrou) para enfrentar o do Havaí, último colocado no quadro de pontuação da Federação Internacional de Futebol, o que ocorreu após heroico empate com a fortíssima seleção do Marrocos e depois de ali chegarmos ostentando dois grandes títulos: maiores campeões históricos do torneio e único país a participar de todas as Copas. Espero, mesmo sem o entusiasmo de outrora, que consigamos o sucesso tão almejado por tantos milhões de brasileiros, de sorte a nos permitir disputar as fases vindouras.
Resolvi cuidar do tema não por me julgar bom entendedor, como aliás foi meu amigo-irmão Evandro Paes de Farias, como é nosso Maneca, do alto de seus belos 82 anos, pelo menos 60 dos quais dedicados ao esporte, ou de Cláudio São Paulo, o experiente e competente profissional da ótica no Estado, nem de Omar, o Senador, isto só para ficar no nosso Nacional Futebol Clube, o Leão da Vila; menos ainda do que foi João Braga, de tantas saudades, comentarista respeitado por décadas na Difusora de Josué e na rádio Baré de Jaime Rebelo, de Luís Saraiva, como era também na Associação dos Cronistas, a ACLEA que também foi sua e de Arnaldo Santos, e na própria Federação Amazonense de Flaviano Limongi. Não, escrevo como simples torcedor e será nessa qualidade que me darei o direito de nem tecer as loas que desejaria em ocasiões e realidades outras. Mas quero resgatar o respeito aos que construíram até aqui.
Começo por restabelecer os registros do primeiro grande feito. O ano era 1958 e num junho como este, no campo do adversário, o Brasil, sob o comando de Vicente Feola, derrotou a Suécia pelo elevado escore de 5×2, sagrando-se pela vez primeira Campeão do Mundo no futebol. E é de propósito e com orgulho que digo saber de cor, até hoje, o nome de cada um dos heróis de então, que vou listar na ordem em que o time costumava ser organizado tecnicamente: Gilmar, o goleiro, Djalma Santos e Belinni, zagueiros, Zito, Orlando e Nilton Santos, donos do meio de campo, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo, o ataque.
Em 1962, tendo Aymoré Moreira como técnico, o bicampeonato foi inevitável, com pequenos ajustes impostos por definição do próprio departamento médico, incluindo a contusão de Pelé no meio da competição, e o 4-2-4 da final contra a Tchecoslováquia foi armado com Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos, Zito e Didi (o inventor da famosa “folha seca” que desorientou goleiros pelo mundo), Garrincha, Amarildo, Vavá e Zagallo.
Em 1966 não tivemos rendimento igual e, sob o comando de Feola, fomos eliminados ainda na fase inicial, derrotados pela Hungria e por Portugal, mesmo tendo bicampeões no elenco, como Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Garrincha e Pelé.
Em 1970, quando a organização já não observava o 2-3-5 do primeiro título, Félix foi o goleiro, com defesas ainda hoje lembradas; Carlos Alberto, pela direita, Brito e Piazza no chamado miolo de zaga, e Everaldo, lateral esquerdo compunham a defesa menos vazada da Copa; Clodoaldo, Gérson e Rivelino formavam o luxuoso meio-campo; Jairzinho, o endiabrado, Pelé e Tostão compuseram o ataque vencedor, que tantas dores de cabeça deve ter dado aos adversários. Esses os titulares que, em 21 de junho (dia em que talvez você esteja lendo isto), no estádio Azteca, cidade do México, cuja população torcia por nós depois da eliminação de seu país, impuseram à Itália o revés de 4×1, enchendo de glória os brasileiros pelo tricampeonato e pela conquista definitiva da taça “Jules Rimet”. E Zagallo, o ponta esquerda do time de 58, foi o técnico que comandou a viagem para a realização do sonho. Era o time embalado pelo grito de “noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”, hino que uniu brasileiros nas praças, nas ruas, nos estádios, nas casas e nos bares, cantando “de repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão, todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração…”
Depois, outros vieram para ganhar os títulos e a partir de 1974, como por toda a década de 1980, não conseguimos o tetra, embora tenhamos formado grandes plantéis. A camisa amarela de muitos louros, de tantas vitórias, fez surgir, em 1982, o título de Seleção Canarinho, que a tantos amedrontou nos gramados onde Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Junior, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico (o Galinho de Quintino, menino e herói insubstituível do Flamengo), com Serginho Chulapa e Eder no ataque mostraram ao mundo o que ainda é considerado por muitos como uma das melhores equipes de futebol do planeta. Mesmo assim, impondo-se com o título único e com a beleza da arte de jogar futebol, não foram os que ganharam para nós o tetra, por uma dessas coisas que se diz serem próprias do futebol.
24 anos depois da festa em solo mexicano, o time dirigido por Carlos Alberto Parrera trouxe para cá, afinal, novo campeonato do mundo, com uma dupla de ataque que parecia jogar por partitura musical, e na partida derradeira tivemos de decidir o título com a já também campeã Itália na cobrança de pênaltis e defesas salvadoras de nosso arqueiro. Assim é que em 1994, em estádio americano, erguemos novamente a taça havendo o time titular sido definido com Taffarel, Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Branco, Mauro Silva, Dunga Zinho e Mazinho, Bebeto e Romário.
Em 1998 fomos derrotados pela França, na final do campeonato, sem que Romário, o melhor da Copa anterior, pudesse disputar, vetado pelo departamento médico de Lídio Toledo, e o time principal, em que a torcida tanto podia confiar, foi Taffarel, Cafu, Aldair, Júnior Baiano e Roberto Carlos, Dunga, Cesar Sampaio, Leonardo e Rivaldo, Bebeto e Ronaldo.
Foi em 2002, sob o comando de Luiz Felipe Scolari, que o time brasileiro consagrou-se como pentacampeão mundial de futebol, derrotando a Alemanha por 2×0, competição em que o sistema 3-5-2 armado por Felipão, como carinhosamente chamado pela torcida e pela imprensa, contou com Marcos, Lúcio, Edmilson e Roque Júnior, na zaga, Cafu e Roberto Carlos, como alas formando o meio com Kleberson, Gilberto Silva e Ronaldinho Gaúcho, e no ataque Ronaldo e Rivaldo. Desde lá, somos penta e só nós o somos.
Mais 24 anos se passaram e estamos ainda em busca do sexto título, desta feita com um técnico estrangeiro multicampeão e já nem somos mais a amarelinha que encantou e amedrontou, até o tom do azul da camisa do segundo uniforme foi modificado, assim como a roupa social de viagens para a qual arranjaram uma cor neutra de cinza. Não mais temos os craques de outrora e nem somos os primeiros no ranking da FIFA, a quase totalidade dos convocados não atuam, alguns já há bastante tempo, no futebol do Brasil. Certamente por isso sei de cor o time de 1958 e não consigo dizer o deste tempo.
Na primeira partida do campeonato de agora não fomos os melhores e pra falar a verdade talvez nem medianos. Um único lance do flamenguista Vinicius Junior evitou a derrota e nossos atletas pareciam “sentir o peso da estreia” em demasia, que afinal estreantes eram também nossos adversários que nem por isso se deixaram dominar pelo marasmo a que o time brasileiro os convidava.
Felizmente, no primeiro tempo de jogo sufocamos o time do Havaí e alguns de nossos jogadores conseguiram destacar-se principalmente no desejo de vencer, o que em linguagem específica significa ostentar garra. A julgar por essa etapa da partida, talvez até seja possível crer.
Não somos mais “noventa milhões”, porém os mais de duzentos milhões temos direito ao difícil grito de campeão como os do tri, até para devolver à amarelinha seu brilho que é histórico e que precisa voltar a impor respeito.

