ROBÉRIO BRAGA – A sucessão governamental

 

Não pense o leitor, apressadamente, que vou me atrever a analisar a atual campanha para sucessão do governo no Amazonas, nem a de qualquer outro estado da federação, porque não seria de bom alvitre um historiador tratar do momento presente, coisa que cabe aos cientistas políticos e às madames que costumam colocar cartas e fazer adivinhações, embora eu tenha cá os meus princípios, opções político-partidária e ideológica e, sobretudo, relativa à realizações administrativas e a defesa do desenvolvimento do Amazonas.

O título do tema do artigo de hoje se reporta à sucessão de Eduardo Ribeiro em 1896, iniciado, como de praxe, um pouco antes do tempo, e qualquer semelhança com o cenário atual, em certos pontos, cabe ao leitor examinar e será mera coincidência, mas nada proposital de minha parte.

Estando no exercício do mandato, e sem direito à reeleição imediata, Ribeiro verificou que estava sendo iniciada um reagrupamento de políticos em razão da criação do Partido Republicano Federal, no Amazonas, e já em fins de 1894 começaram as cogitações sobre a possível candidatura de Manoel Machado, o barão do Solimões, ao governo, o qual, até então, vinha de certo “namoro” com Ribeiro. Na mesma ocasião, Fileto Pires e Gabriel Salgado se tornaram os principais nomes “amazonenses” no plano federal desse partido. Ribeiro discordou desse encaminhamento e, um pouco sem opção, tempos depois decidiu tirar do bolso do colete, de última hora, o nome de Fileto Pires Ferreira, um deputado federal que era seu aliado.

Importante lembrar ao leitor que, além da oposição de Ribeiro, a candidatura do barão do Solimões, homem íntegro e culto, sofria resistência de figuras do plano nacional, as quais costumavam acusá-lo, ainda que a boca pequena, de ser monarquista saudoso.

Na verdade, naquela ocasião, as mais expressivas lideranças do Estado estavam separadas em pelo menos três grupos ou blocos políticos: o dos irmãos Moreira, todo poderoso e oligárquico por natureza, sob a chefia de Joaquim Sarmento; o do desembargador Antônio Sá Peixoto, que faria de Manaus um inverno em 1910, com Lima Bacury, esses também vinculados aos Moreira; e o de Fileto Pires e Gabriel Salgado dos Santos.

O novo partido, de 1895, de certa maneira formalizou o racha, rompendo certa convivência que estava sendo mantida com a presença de Ribeiro no governo e a expectativa de sua sucessão. O Partido Democrata, que vinha servindo para unir quase todos, se partiu feio e a cada hora saía um de seus membros, mesmo sendo chefiado por Guilherme Moreira, outro poderoso barão, o de Juruá, e logo depois todos ficaram em oposição a Eduardo Ribeiro, menos o antigo deputado, Emílio José Moreira, que ficou atracado ao governo, mesmo sem ter mais simpatia por Ribeiro, mas preservando vinculação ao poder, como se poderia dizer na atualidade.

Emílio estava em declínio político e de saúde, e faleceu no começo de janeiro de 1896. Guilherme ficou isolado e decadente após a morte de Emílio e se afastou da política. Ribeiro organizou um jornal de partido, “A Federação”, para se defender enfrentando “O Amazonas”, elegeu Fileto e dizem que atuou para sua deposição.

Oligarquia por oligarquia, declinando a dos Moreira até pelo racha interno de parentes e aderentes, no vácuo anunciado com a saída de Ribeiro, preterição do barão do Solimões e queda de Fileto Pires, nascia a oligarquia de Silvério Nery que seria poderosa e longa. E tudo começou com uma tentativa de Ribeiro fabricar, na calada da noite, um sucessor de algibeira.

*O autor é advogado, membro da Academia Amazonense de Letras

 

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