ROBÉRIO BRAGA – Manaus: amor e sofrimento (3)

Advogado e membro da Academia Amazonense de Letras, Robério Braga

Estamos às vésperas da data de representação da fundação de Manaus – 24 de outubro – ou seja, da presença formal do homem europeu com o estabelecimento do Forte de São José da Barra do Rio Negro, assim fixada depois de inúmeros debates públicos em 1969, quando dos festejos do tricentenário e em razão de vigorosas e inteligentes intervenções dos professores Arthur Cézar Ferreira Reis, Mário Ypiranga Monteiro, Agnello Bittencourt e Francisco Gomes da Silva.

O simbolismo então estabelecido não desconhece – nem poderia fazê-lo – a presença e rica existência anterior de populações naturais da região e tradutoras de civilização peculiar para o olhar europeu e de alto valor e expressividade, assim como não pode esquecer a contribuição de quantos, das mais diversas e distantes origens emprestaram operosa contribuição à formação da sociedade manauense.

A polêmica entre alguns intelectuais ao tempo do tricentenário (1969), em alguns momentos ácida, serviu para desnudar aspectos até então encobertos de nossa história, mas não foi capaz de impedir que, tempos mais tarde, fossem reduzidos os anos já festejados pela cidade, praticamente pela metade,por decisão monocrática de alcaide mal-informado e assessoria que pretendia se fazer notar. Pouco tempo depois esse embate foi vencido e a história sob a ótica europeizada retomou seu curso normal.

Vale lembrar que temos vivido sob efeito de ciclos econômicos – especiarias, borracha, juta e castanha, comércio de importados e produção industrial da zona franca -, enquanto não conseguimos identificar com precisão e promover outros veios que venham impulsionaro desenvolvimento e abrir novas janelas para o futuro, seja o turismo, biofármacos, mercado de carbono, gás e petróleo e outros a serem explorados.

O fato é que vivemos em uma cidade-Estado que foi sendo desmantelada em sua forma mais elegante e tradicional faz tempo, e não obteve ser transformada em metrópole apesar de esforços e discursos nesse sentido. Afora a descaracterização do Centro Histórico ela se espraia cada vez mais a desafiar a tudo e a todos, e por onde se anda em pontos mais distantes do centro, ela se torna irreconhecível e parece não ser nossa. Há valas de esgoto a céu aberto,becos e vielas às escuras a serviço do crime, lixo empanturrando as esquinas e miséria grassandona maioria nos bairros e invasões. E não se diga que não têm sido anunciados esforços no sentido de minimizar esta situação, mas a explosão demográfica é crescente e as forças públicas não conseguem suprir as necessidades da população.

Como se não bastassem tantos sofrimentos no curso de muitas luas, com a perda de bens de valor excepcionale patrimônio natural, arquitetônico, artístico e cultural em sentido amplo, eis que, neste 2023, até o Rio Negro – esse gigante que encanta os que nos visitam há séculos, embala nossos sonhos de prosperidade e nos dá orgulho – até ele entrou em grande sofrimento e está expondo as suas entranhas mais profundas, as que não eram vistas havia mais de 120 anos.

As muitas águas negras que beijam o Solimões e saem navegando lado a lado em abraço que não se consuma de todo, magistralmente decantadas por Quintino Cunha em poesia que atravessa o tempo, sem rival, foram estas águas límpidas que cansaram de banhar a frente de nossa terra e se recolheram, talvez de vergonha. A esperança que nos anima é que, senhora de outros mundos e encantos,Manausesteja aguardando as pajelanças dos nossos muitos antepassados (baré, manaós e passés) que, com sabedoria milenar, poderão curar essas feridas tantas e trazê-las de volta ao leito natural.

Para isso, basta ter fé. E depois, cuidar melhor de nossas águas santas – caminhos de vida e de prosperidade -, florir as ruas, plantar árvores, afugentar os fogaréus das matas e esperar que nunca mais venhamos a sofrer esse castigo que os olhos não mereciam ver.

*O autor é advogado, membro da Academia Amazonense de Letras; foi secretário de Cultura do Amazonas por mais de 20 anos

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