JOSENILDO SOUZA – Os recados da natureza aos negacionistas das mudanças climáticas e o diálogo com poetas

Professor universitário e escritor, Josenildo Souza

Há 16 anos, a música do compositor Emerson Maia anunciava que “virou deserto o meu torrão. Meu rio secou, pra onde vou?”. O alerta, que pode ser encontrado na letra da música Lamento de Raça, lançada pelo boi Garantido, em 2007, tornou-se uma realidade nas Amazônias, com secas extremas em 2005, 2010 e 2023, que podem se alongar até 2024. Nos primeiros versos, diz a composição que todos iriam chorar: índios, brancos e, acrescentamos, negros, ricos, super-ricos e pobres.

Em 1977, outra música trazia em seus versos os prenúncios dos riscos ambientais da relação do homem com a natureza e o projeto da modernidade técnica. Trata-se da composição de Sá e Guarabira, Sertão vai virar mar. A composição tece críticas a grandes projetos e podemos associá-la a megaprojetos nas Amazônias: hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, Balbina, Tucuruí, exemplos que podem se relacionar com os fenômenos enfrentados pelas populações das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, como os ciclones extratropicais, que alagaram cidades, desterritorializaram e dizimaram famílias inteiras.

Os poetas e pensadores do cinema também já anunciavam previsões catastróficas que a relação homem-natureza poderia causar e os efeitos da modernização dos projetos desenvolvimentistas nas Amazônias. Essas passagens podem ser encontradas em imagens-problema, ou imagens-pensantes, nas cenas do filme Fitzcarraldo, dirigido e roteirizado por WernerHerzorg, lançado em 1988, que nos remete às riquezas das Amazônias (Brasil/Peru) e Pan-Amazônia, aos projetos modernizantes de exploração e degradação ambiental e às desigualdades sociais, miséria e à extrema pobreza a que está submetida à população.

No contexto geral, o filme O ponto de mutação, dirigido por Bernt Amadeus Capra, lançado em 1990, pode lançar luz e debates a inúmeros problemas. Entretanto, destacamos aqui a crítica e os questionamentos que poderemos encontrar ao papel da ciência, de governantes e políticos, além dos paradigmas da economia capitalista, assentada na produção, consumo e exploração desenfreada dos recursos naturais não renováveis, defendidos por legisladores e projetos de civilização e de sociedade.

Em relação ao aquecimento global, filmes como Amazônia em chamas, dirigido por John Frankenheimer, lançado em 1994, e Fronteira das Almas, dirigido por Hermano Penna, lançado em 1986, podem apontar para a violência aos ambientalistas, às populações indígenas, quilombolas e campesinos, e à reforma agrária.

Ademais, tais obras ao abordarem a violência no campo, ao desmatamento, se associa ao aumento da temperatura global, que traz as queimadas, o aquecimento das águas dos oceanos, dos rios e lagos de água doce, a mortandade de peixes e botos em cidades da região Norte. O fenômeno das terras caídas nos municípios de Beruri, Tabatinga, São Paulo de Olivença, Parintins, dentre outros, pode nos remeter ao filme Uma verdade inconveniente, dirigido por Davis Guggenheim, lançado em 2006, que aborda as catástrofes associadas aos efeitos das mudanças climáticas.

A seca dos rios e lagos das Amazônias anuncia a exigência de mudanças no padrão dos paradigmas de desenvolvimento, a reclamar a distribuição dos recursos, democratização das oportunidades de emprego e renda, a proteção aos guardiães das florestas e territorialidades (demarcação dos territórios e reforma agrária) e às populações tradicionais.Passa-se, assim, a exigirem-se mudanças aos projetos políticos dos governantes, o envolvimento da população com a produção e participação no Plano Diretor das Cidades e Plano Plurianual.

A realidade, ilustrada pelo cinema e poetas, indica que não é mais possível adiarem-se ações de concretização de aterros sanitários, logística reversa, mudanças e prorrogação da lei ambiental pelo Congresso Nacional com finalidades e conveniência política. Exigem-se mudanças no papel do Tribunal de Contas da União, Tribunal de Contas dos Estados e Municípios, Controladoria Geral da União, Ministério Público Federal e Estadual, para incidir penalidades por improbidade administrativos gestores públicos pelo descumprimento do plano de saneamento básico e resíduos sólidos. Deve haver mudanças, também, no papel (e projeto político pedagógico) de escolas e universidades e da sociedade em geral.

A sociedade deve exigir a defesa e o fortalecimento do Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição e das cláusulas pétreas, contra o avanço do Centrão e da bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) que coloca em risco a Democracia com constantes remendos a Carta Magna. A saída é pelo conhecimento, pela defesa do ensino público, laico, socialmente referenciados de qualidade, e de mais universidades públicas nas Amazônias. A saída é pelo voto qualificado nas futuras eleições, que se avizinham, e pelo fortalecimento da Democracia contra o avanço do extremismo político e religioso. A saída é fiscalizar o voto dos eleitos, os projetos de lei que apresentam (à revelia da população) e sua participação nas comissões do Congresso Nacional, Assembleias e Câmaras Municipais. A saída é o efetivo cumprimento da Transparência Pública e da lei de Acesso a Informação Pública.

* O autor é professor da UFAM e doutorando na Universidade Federal de Pelotas. É autor do livro ‘O Desenvolvimento Sustentável na Educação Amazônica: o uso do cinema na articulação de temas transversais de desenvolvimento sustentável no ensino fundamental do município de Parintins-Amazonas-Brasil”

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