ROBÉRIO BRAGA – O cientista que adotou a Amazônia

​Não foram poucos os cientistas, pesquisadores e viajantes que avançaram pelo interior dos rios amazônicos,há muito tempo e por muitos anos, fosse para estudos de alto interesse dos museus e universidades europeias, fosse em busca de acervos do povo que entendiam ser “exótico” e que deu vida e teve a posse mansa dessa terra.

Outros se estabeleceram com ânimo de permanência e ofereceramimportantes contribuições nos mais diversos campos do conhecimento humano.

Entre os que se instalaram em Manaus e se dedicaram à ciência e ao povo mais humilde e necessitado, notadamente diante das mazelas das doenças tropicais pouco conhecidas no passado, um médico e cientista desponta com primazia: Harold Howard Shearme Wolferstan Thomas (1875–1931), ou simplesmente Dr. Thomas, como ficou conhecido pelos de seu tempo e ainda agora, passados muitos anos de seu desencarne.

Nascido no Canadá e senhor das ciências médicas e clínicas, atuou em Manaus como médico, laboratorista, pesquisador, cientista e homem de vida social intensa, e daqui enviava estudos e artigos para serem publicados nas mais renomadas revistas científicas da época e para servirem a debates acadêmicos, isso após ter sido reconhecido como o descobridor de curas para doenças até então tratadas com paliativos.

Há quem o considere um gênio de vanguarda, não só por ter atuado nos centros mais renomados da Alemanha e por ter integrado a importantíssima “Liverpool School of Tropical Medicine”, da Inglaterra, instituição na qual ele e Anton Breinl descobriram que o composto “Atoxyl” era eficaz para tratar a doença do sono, que era forte epidemia na África, conquistando notoriedade mundial.

​Chegou a Manaus em 1905 para estudar, decifrar e combater os surtos de febre amarela em expansão na capital amazonense e, com instalações na praça Antônio Bittencourt, que anos mais tarde se tornou Praça do Congresso, ele fundou o “The Yellow Fever Research Laboratory”, precisamente no edifício de estilo em que funciona a Biblioteca Pública Municipal “João Bosco Pantoja Evangelista”, de onde mapeou as precárias condições sanitárias da cidade e saía para servir como patologista na Santa Casa de Misericórdia.

Pela sua atuação, não raro era chamado de médico dos pobres. Apaixonado pela terra e dedicado aos estudos, envolvido em vida social intensa que se tornou boêmia, Thomas permaneceu encravado nesse mundo de florestas e águas, mais em uma cidade que se apresentava como europeia ou como um sonho parisiense nos trópicos, e se afastou completamente da convivência e das relações com o mundo europeu e, mesmo chamado a retornar para universidades e centros de estudos fora do Brasil, jamais retornou ao Canadá.

​Servindo às companhias inglesas, notadamente às que administravam o porto e os bondes elétricos, que eram modernidades compradas em libras esterlinas, Thomas fez de sua chácara, no Adrianópolis, uma enfermaria para a qual recolhia os idosos e os mendigos abandonados pelas ruas, dos quais cuidava e zelava pela saúde, dando-lhes apoio integral e dignidade.

De enorme dedicação à pesquisa e à medicina, desprendido quanto a bens materiais, perdeu-se na boêmia dos cafés manauenses e desencarnou em 8 de maio de 1931, com 56 anos, sendo sepultado no Cemitério São João Baptista.

Anos mais tarde, o Asilo de Mendicidade de Manaus, instituição criada pela Maçonaria Amazonense sob a liderança de Agnello Bittencourt, recebeu seu nome, firmando o entendimento de ter sido o médico dos pobres e um cientista que verdadeiramente adotou a Amazônia.

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