ROBÉRIO BRAGA – Jubileu de Prata (II)

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O desafio de registrar a história de 25 anos do Festival Amazonas de Ópera em poucos artigos, exige capacidade de síntese (que sempre me faltou) e recuperação firme da memória para que, pelo menos, os principais fatos sejam recuperados, e, por isso, não é demais penitenciar-me por possíveis omissões.

Induvidoso que Michael Jelder teve méritos, notadamente o de mobilizar – nem se sabe como – maestro, artistas, orquestra e cenários para realizar com o Estado/Secretaria de Cultura os dois primeiros festivais. De igual modo, méritos coube a São Paulo Imagem e Data, Cleber Papa e Rosana Caramaschi que produziram os de 1999 e 2000. Ambos, entretanto, tinham objetivos diversos dos que havíamos traçado e que, entusiasticamente, Amazonino Mendes aprovou e concedeu as condições para realização.

Naquele momento (1999-2000), experimentávamos a necessidade de transição na direção artística da Amazonas Filarmônica, por várias razões, inclusive recomendação de respeitáveis empresários que apoiavam a construção do projeto. Como se fosse predestinação, eis que, nessa fase, o maestro do III e IV festivais foi Luiz Fernando Malheiro a quem, depois do sucesso dos eventos e várias reuniões de trabalho, reconhecendo nele qualidades artísticas, entusiasmo e competência, propusemos transferir-se para Manaus para assumir a direção artística do festival e a regência da orquestra, o que foi aceito, até porque os objetivos por mim expostos coincidiram com sua forma de trabalho e aspiração profissional. Em seguida chegariam o jovem e talentoso maestro Marcelo de Jesus (o renovador das linguagens) e inúmeros artistas, diretores e produtores de qualidade a somarem com os amazonenses para os desafios. 

Eis porque no artigo anterior registrei que esse momento foi transformador. Desde as primeiras óperas e criação dos corpos artísticos (1997) vinha se formando um clima novo na cidade. A ópera e o lírico passaram a interessar várias pessoas; a imprensa abria reportagens; servidores da Secretaria entusiasmaram-se, e, particularmente, os do Teatro Amazonas dirigido por Inês Daou conferiam tratamento inovador ao espectador; na coxia, técnicos liderados por Raimundo Nonato, seguido por Marcos Apolo que despontaria, Rogério, Cabral, Eliezer, Wagner, Caldas, Zezinho… cresciam no respeito de todos; empresas sinalizavam interesse no evento; o governador entusiasmava-se em ver o Teatro que restaurara tendo a função para a qual foi construído; coralistas – o único grupo que participou de todos os festivais -, instrumentistas e bailarinos preparavam-se para integrar o Festival que começava a ganhar prestígio.

Ou seja, compunha-se cenário favorável à gestão de política cultural que empreendíamos e foi muito mais ampla e seguiu por 21 anos, graças ao trabalho, harmonia e competência de inúmeras pessoas.

Como escreveu o maestro Malheiro no livro-programa do Festival de 1999, “o trabalho de equipe é determinante na qualidade do resultado. Talvez aqui resida o grande fascínio desse Festival”, destacando a sintonia do Governo e produção que “favoreceu as condições ideais de trabalho”. O que sabíamos é que a realização dos sonhos estava começando e havia muito a fazer até que os meninos-alunos do Liceu Claudio Santoro (criado em 1998 por sugestão de José Braga, mestre e violinista) até que eles pudessem estar em cena com seus professores, na maioria advindos do exterior para entregarem-se de corpo, alma, coração e vida a formar artistas dando asas aos talentos caboclos.

A qualidade dos corpos artísticos era “resultado do talento e do trabalho sério de seus integrantes, assim como da visão e do apoio que o Governo do Estado, através de sua Secretaria de Cultura vem dando às atividades artísticas e culturais do Estado”, dizia Malheiro em 2001, enquanto Amazonino reconhecia que na SEC se tratava de “trabalho cuidadoso de toda uma equipe unida por um ideal, que tem mostrado a capacidade de enfrentar desafios”.

O fato é que foi adensando a cadeia de técnicos, maquinistas, costureiras, cenaristas, produtores, maestros, solistas, figurinistas, iluminadores, empresas privadas para o setor… e com eles começamos a produzir parte do Festival em Manaus, sob critérios que definimos no Plano de Cultura de 1994 e sob nossa gestão administrativa e política, com a batuta artística de Malheiro que usava suas relações pessoais, conhecia o metiê e agia com liberdade e critério profissional. Foi assim que seguimos formando o espiral de que tanto falei a nossa equipe, tendo a ópera como eixo fundamental do Projeto de Artes para o Amazonas.

Em 2002 o VI Festival Amazonas de Ópera explodiu em audácia.


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