ROBÉRIO BRAGA – Expandem-se os Cafés
Não mais como antigamente, no tempo do “ouro branco” arrancado das árvores fincadas nas estradas de borracha, rio abaixo, rio acima, pelo interior amazônico, tempo no qual essa cidade foi bordada de modernidades que só a Europa conhecia, provocando impactos de prazer, nos anos mais recentes dessa década, vem crescendo o número de casas de cafés em Manaus.

Ponto de encontro para boas conversas, oportunidade de passar o tempo, de juntar amigos e casais, por todo lado por onde se anda, além de postos de gasolina e farmácias, é possível encontrar cafés de qualidade em serviço e produtos, aos quais se costuma aliar sofisticada decoração, mobiliário e louçaria. Há outros que, a guisa de regionalismos, se apresentam de forma rústica, mas se esmeram no paladar das comidinhas.
Há uma variedade enorme e crescente de composições do paladar com cafés. Coisas que vão refinando o gosto e apurando a sensibilidade de quantos admiram saborear essa bebida que, no fundo, é só o motivo para o convite a um encontro sem formalidades. Mas quase todos eles pecam pelo mesmo motivo: a hora em que costumam cerrar as portas, que não é a mais conveniente para quem não pode suspender as atividades laborais antes do cair da noite.
Mesmo sem revelar, posso dizer que tenho cá as minhas preferências por lugares nos quais me sinto bem acolhido e posso aproveitar a convivência de amigos e familiares, em horários oportunos dias feriados, fugindo dos atropelos do dia a dia, nos quais fico jogando conversa fora ou me atualizando a respeito dos assuntos mais falados da semana.
Não se trata de novidade. A releitura de uma crônica de Humberto de Campos sob o título de “A glorificação do café”, lançada na obra “Últimas crônicas”, esclarece que há milhares de anos esses recantos aprazíveis foram sendo organizados e sempre com o mesmo objetivo: saborear a bebida e reunir amigos.
Tempo houve em que a arborização da cidade do Rio de Janeiro foi feita com pés de café, e era possível ver a via pública como um grande cafezal com o plantio feito em linha, o que, segundo o mestre Humberto, a embelezava ainda mais, porque o pé de café tinha a “faculdade de exibir três vestidos por ano – um branco, outro verde e outro vermelho”, o que o tornava, à época, ornamento e símbolo da riqueza do país.
Isso sem falar que os cronistas árabes do século XV, no mosteiro da Arábia, os faraós e Luiz XIV consagraram essa bebida, tanto que em Versalhes daqueles anos se tornou hábito chic, nobre e de alta classe, como foi usado em Constantinopla.
Tem sido no papo do cafezinho, desde os primórdios da República, que os senadores de todos os partidos e ideologias costumam ajustar seus pontos de vista em relação à discussão de temas polêmicos e entabular os primeiros entendimentos para futuros acordos político-eleitorais, assim como se costumava fazer, com certa cerimônia, na antessala dos julgamentos das cortes superiores em que magistrados se preparavam para os atos solenes de aplicar as leis, dizer o direito e fazer justiça.
Do café às baforadas de charutos e ao trago de cigarros, tudo poderia se harmonizar, mas, em certos casos, como nos antigos cafés das “terrasses” à moda francesa da capital amazonense no tempo dos senhores dos seringais, jornalistas, poetas e boêmios à solta pelas ruas, era também nos cafés que as conversas poderiam debandar para disputas mais acirradas, pilherias, poesias lançadas em guardanapos e cardápios, e, às vezes, para o pugilato ou confronto armado, mas, neste caso, as portas dos cafés eram fechadas para que tudo corresse na intimidade dos presentes e não chamasse a atenção da polícia.
Fiquei pensando se, dias desses, não teria sido oportuno o presidente do Supremo Tribunal suspender a sessão e levar os seus pares para um cafezinho na antessala de julgamento e, na intimidade, trocarem as ofensas que quisessem trocar, ou combinarem a decisão a tomar, aplicando a lei, dizendo o direito e fazendo justiça.

