Robério Braga – Festa, fumaça e confusão

Anda tem quem se lembre de festejar a fundação de Manaus a partir da presença do homem de origem europeia, com a implantação do forte de São José da Barra do Rio Negro, em 1669, data consagrada em 24 de outubro não porque tenha sido essa a de inauguração ou do lançamento da pedra fundamental do fortim, mas por conciliação proposta pelo professor Arthur Reis, em 1969, para os festejos do tricentenário, em meio a um grande debate que se estabeleceu pela imprensa e no seio das instituições de cultura, certamente porque não havia nem há precisão do dia e do mês em que tudo teve início.
Lembro-me muito bem de quando Mário Ypiranga, Arthur Reis, Padre Nonato Pinheiro, Francisco Gomes, Agnello Bittencourt e outros tantos debateram pelos jornais da cidade acerca da data certa do forte e do nome da medalha que o prefeito Paulo Nery mandaria cunhar em comemoração aos 300 anos, cada qual salientando fatos e circunstâncias que sustentavam as suas opiniões a respeito do tema. Havia quem estivesse calcado em documentos a fundamentar os artigos; havia quem alegasse memórias nos relatos de jornal.
Os eventos que serviriam para comemorar essa importante data por parte da municipalidade foram suspensos, seja pela eleição, seja pelas condições climáticas nada favoráveis à saúde do público que, por certo, compareceria ao local, e isso se deu, também, muito em razão do calor e da fumaça que vem dominando o nosso cotidiano há algum tempo, sem que tenha sido possível dominar tal situação adversa, apesar de muitos esforços já dispendidos neste sentido.
Isso, entretanto, não deve levar à omissão do registro histórico do feito, proclamando-se, ao mesmo tempo, o valor incomensurável das culturas das populações tradicionais que nos antecederam nesse território que, inicialmente edificado sob as bênçãos de São José, tempos depois passou a ser de Nossa Senhora da Conceição, sem ser muito claro o motivo dessa mudança.
Quanto à fumaceira que invadiu a cidade, originária ou não de terras próximas e sob queimadas para fins agrícolas, decorrentes de atos criminosos ou em razão de interesses político-eleitorais, pelo visto parece que vamos ter de ir nos acostumando por que de ano para ano elas vão se repetindo como decorrência natural da forte vazante dos rios, de efeitos por causas estranhas a nosso controle e até mesmo porque não temos sabido cuidar da cidade e seus arredores, desrespeitando a normalidade dos ciclos normais da natureza e a organização de uma cidade tropical.
O problema maior é nos livrarmos das muitas confusões que o processo eleitoral vem nos impondo a cada período de campanha política, o que acontece a cada dois anos. São confusões decorrentes da disputa pelo poder, algumas delas pelo despreparo de alguns candidatos, em razão do modelo adotado pelos partidos, da forma como a justiça eleitoral se comporta até com tentativas de mudanças do jogo em pleno desenrolar da partida esquecendo-se do princípio da anualidade aplicável às regras eleitorais, e, mais recentemente, pela intensa movimentação nas redes sociais que são campo aberto para tudo de bom e de péssimo que o ser humano seja capaz de produzir e divulgar.
De todo modo, ainda que a confusão seja bem maior em razão do instituto da reeleição, que estimula muitas estrepolias por parte dos disputantes, devemos preferir viver essa confusão, mas mantermos a democracia e caminharmos firmes, cada vez mais, para a sua consolidação, do que deixarmos de exercitar o direito-obrigação do voto.
Assim, vamos levando os 357 anos da Manaus metida a europeia, entre festa, fumaça e confusão, mas com a liberdade de votar em quem quisermos.

