ROBÉRIO BRAGA – Nove de Novembro

 

Robério Braga

Poucos hão de lembrar que neste nove de novembro de 2026 completam-se duzentos e três anos da adesão política do Rio Negro à independência do Brasil, sem que tenha havido forças militares promovendo qualquer imposição, mas por aspiração antiga que se arrastava há muito tempo.

Creio que nem mesmo as escolas, sejam as públicas ou as privadas, devem ter dado atenção a esse fato histórico relevante, a ser considerado, inclusive, nas aulas de história, de modo a levar os estudantes a aprofundarem estudos sobre esse acontecimento, todas as lutas travadas por essa autonomia e o empenho de nossos antepassados que chegaram a esgrimar politicamente por várias vezes com o governo provincial geral sediado em Belém e, mais que isso, a tomar armas como foram os casos da revolta de 1832 e do movimento de 1835.

Foi sobre este fato que proferi minhas duas primeiras palestras como membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, precisamente nas comemorações do sesquicentenário da adesão, em 1973, seja a que fiz pelas ondas da Rádio Rio Mar de Manaus ao lado de Rodolpho Valle e Mário Jorge Couto Lopes que se utilizaram das rádios Baré e Difusora, para o mesmo fim, seja a que proferi para alunas do Patronato Santa Terezinha, ao mesmo tempo em que publiquei artigo em jornal da época tratando do tema.

Tudo isso em razão da iniciativa do governo estadual em promover uma série de festejos cívicos, políticos, sociais, esportivos e culturais envolvendo inúmeras instituições, escolas, maçonaria, clubes desportivos, jornalistas, escritores, professores e estudantes, sendo que o ponto culminante foi uma concentração pública de boas proporções realizada na Praça “Nove de Novembro”, então existente nos fundos da antiga Câmara Municipal, precisamente no dia e hora de uma manhã de sol, em 9 de novembro, procurando repetir o que teria se dado em 1823, com a proclamação da adesão amazonense à independência do Brasil.

Isso porque, desde a criação da capitania de São José do Rio Negro pelo marquês de Pombal, os vínculos formais, institucionais e políticos da nossa região eram com a Coroa Portuguesa, fosse por interesse da pequena elite econômica local, fosse por associação e submissão às aspirações econômicas e políticas sediadas na capital da Província do Pará, tal como sucedia com o Maranhão.

Este tema sempre chamou a minha atenção o que me levou a intensas pesquisas que permitissem decifrar as razões de tanta resistência do Pará em permitir a nossa autonomia, o que acabei decifrando, segundo penso, mais recentemente, quando encarregado pelo presidente do IGHA, José Braga, de representar a instituição em colóquio nacional sobre o bicentenário da independência do Brasil realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, comunicação a qual foi o ponto de partida para a elaboração de um livro “A Autonomia do Amazonas  – sofrida e tardia”, prestes a ser apresentado ao público, no qual enveredei por caminhos que revelam com detalhes do andamento dos fatos e da persistência paraense em sufocar a nossa gestão institucional.

Nove de Novembro não é um dia como outro qualquer. É a marca do primeiro e decisivo passo para a autonomia política do Rio Negro e criação do Estado do Amazonas, mesmo que esta só tenha sido consolidada em 1850, após novas e muitas lutas.

*O autor é advogado, historiador e membro da Academia Amazonense de Letras

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