CARLOS SANTIAGO – Por que Flávio Bolsonaro perdeu a eleição?

Numa eleição disputadíssima, como foi o pleito para a Presidência da República do Brasil, há vários fatores que influenciam a vitória ou a derrota de uma candidatura. Entretanto, é sempre possível identificar uma causa principal que contribui mais decisivamente para definir o resultado eleitoral. É sobre isso que pretendo refletir nesta análise pós-reeleição do presidente Lula.
Entendo que as eleições gerais de 2026, especialmente no primeiro turno, foram majoritariamente influenciadas pelo sentimento antissupremo, uma vez que as revelações sobre supostos envolvimentos financeiros e questões de ordem moral envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, ocupavam diariamente o noticiário. As notícias atingiram a imagem dos ministros Alexandre de Moraes, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli, além de repercutirem a decisão da própria Corte de adiar o julgamento de investigações que poderiam resultar no afastamento de magistrados relacionados ao escândalo do Banco Master.
Esse cenário foi explorado com perfeição pelo Partido Liberal (PL) e por seus aliados eleitorais, contribuindo para a eleição de governadores, senadores e deputados federais, além de ampliar a influência da legenda nos estados e no Congresso Nacional. Também ajudou a fortalecer candidaturas como a da professora Maria do Carmo, no Amazonas. A esse quadro somaram-se o desgaste da imagem do presidente Lula, a baixa aprovação popular do governo e o antipetismo, sentimento que marcou as últimas eleições nacionais.
Tudo indicava que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, venceria seu adversário no segundo turno, considerando a expressiva votação obtida na primeira etapa da disputa. Ele contava com o apoio de governadores eleitos dos principais colégios eleitorais do Sudeste e do Sul, de grandes financiadores do mercado financeiro, da maioria dos congressistas eleitos, de setores expressivos do empresariado, de representantes do agronegócio e de policiais e militares. Dispunha, também, de uma rede de influenciadores digitais com milhões de seguidores.
Então, por que o candidato do PL perdeu a eleição? Perdeu porque, no segundo turno, o eleitorado passou a comparar os projetos políticos e as trajetórias dos dois candidatos, especialmente a partir dos debates televisivos. Nesses confrontos, ficou mais evidente a superficialidade de Flávio Bolsonaro, que apresentou pouco conteúdo sobre os problemas do país e defendeu um projeto político para a Presidência da República que já havia sido rejeitado nas urnas em 2022.
É claro que a campanha de Lula no segundo turno contou com a participação importante de jovens nas ruas, promoveu uma onda de mobilização digital, conseguiu aprovar medidas econômicas populares com o apoio do Congresso Nacional e se beneficiou do carisma do presidente. Porém, a qualidade política e moral de seu opositor também contribuiu decisivamente para as mobilizacões e o resultado do pleito.
Em grande medida, bastou ao eleitorado comparar os dois candidatos durante os debates para compreender as diferenças entre suas propostas, suas trajetórias e suas capacidades de governar. E a decisão final da maioria do eleitorado não foi favorável a Flávio Bolsonaro.
*O autor é Sociólogo, Cientista Político, Filósofo e Advogado.

